A Meditação do Dia - Gerson Borges

Ler é um exercício espiritual. O texto por excelência, a Bíblia, revela uma pessoa - Deus. Pessoas. Relacionamento. Vida. Eis o mundo da leitura! " Tome e Leia!" (Agostinho)

18.3.08

O quê? Como?

Henri Nouwen nos ensina que nossa verdadeira vocação, nossa verdadeira identidade não é a do Filho Mais Novo nem a do Filho Mais Velho da Parábola que Jesus contou. Somos chamados a nos identificar com o Pai, com Deus. Para Nouwen, e eu concordo, isso exigirá um processo que passar pelo aprendizado prático do pesar, do perdão e da generosidade ( vale a pena ler o que ele ensina em “ A volta do filho pródigo “ sobre ‘ Tornar-se Pai ‘. ) Ainda no tema da arte perdida do lamento bíblico, divido algumas meditações, não sei se bem-vindas, mas bem-vividas, com certeza, por mim!

Pesar. Não o verbo (do Latim Pensare, isto é, determinar, avaliar o peso de ) mas o substantivo (mágoa, desgosto, remorso, arrependimento, tristeza, pêsame ). Pesar é luto, lamento. Só sabe e pratica isso quem é adulto emocionalmente, quem , por meio de consciente, sacrificial empatia abre os olhos, os braços e o coração para o sofrimento. Primeiro, o seu. Depois do outro. Isso faz todo sentido pois não podemos crescer sem lidar em um nível mais abrangente com a dor, com a perda, com a desordem das coisas, das relações, com a terrível realidade do mal, tanto o humano quanto o demoníaco, como enfatiza Scott Peck em ‘ O povo da mentira ‘ . Pesar é dizer como os enlutados no Antigo Testamento “ake “, em hebraico , “ o quê ? Como ? “

O quê ? Como aquela família se destruiu ?

O quê ? Como aquela pessoa se arrebentou ?

O quê ? Como aquele ministério, aquela igreja terminou assim, patéticamente ?

“ Restaura-nos, Senhor, para ti, para que voltemos. Renova-os nossos dias como antigamente “ ( Lamentações 5.21 )

O quê ? Como uma amizade assim terminou sem mais nem menos ?

O quê ? Como uma parceria tão promissora para o Reino de Deus deu em nada ?

O quê ? Como uma personalidade tão carismática e um caráter tão invejável pôde evaporar no ar ?

“ Restaura-nos, Senhor, para ti, para que voltemos. Renova-os nossos dias como antigamente “ ( Lamentações 5.21 )

O quê ? Como alguém tão generoso se vende por tão pouco ?

O quê ? Como alguém se deixa seduzir tão descaradamente por Mamon ?

O quê ? Como alguém assim , tão sábio e experiente cai na velha armadilha do trio nefasto dinheiro-sexo-poder ?

A resposta, eu sei e você sabe: a gente é humano, demasiadamente humano. Por isso, a queda, o tombo, o olho-roxo. Ah, mais eu lamento ! “ Restaura-nos, Senhor, para ti “ .

A Lectio Divina em Lamentações ( estou seguindo o roteiro de Carlos Hernandez, ‘Uma viagem ao coração de si mesmo ‘ ) deixou-me pesaroso, convidou-me ao lamento. Seguindo o conselho de Anselm Grün ( ‘ O céu começa em você ‘ ) , não fugi da cela domeu coração, pelo contrário, tenho me recolhido ainda mais nela. Lá, ou aqui, dentro de mim, recupero nesses dias a gramática, o vocabulário, a sintaxe dessa linguagem perdida do lamento. Não é perda de tempo não. Como diz Michael Card no seu lindo livro “ A sacred sorrow “ ( Um luto sagrado), recuperar essa linguagem nos torna “ mais verdadeiros na adoração e na oração “, mais solidários, mais humanos, mais comedidos e cuidadosos na hora de atirar pedras, de descer o pau do julgamento . Ou seja, mais adultos. Espiritual e emocionalmente.

Mas Nouwen tem mesmo razão: é mais fácil ser Filho pródigo do que Pai Espiritual . Mas para quem quiser aprender, eis alguns ( bons ! ) professores em aulas-práticas: Deus ( Gn 6.6 , 1Sm 8.7 ), Davi ( 2 Sm 1.17, 3.33, 18.33), Jeremias ( 2 Cr 35.25 , Jr 12.1-4, 14.17-22, 20.7-18, 25.34-38 , Lamentações , capítulos 1-5 ), Esdras ( 9.6 ), Salomão ( Ec 1.1-11 ), Ezequias ( Isaías 38.10-20 ), Isaías ( 52.13 – 53-.13 ), Daniel ( 9.4-19 ), Amós, ( 5.1-4 ), Jonas 2, Miquéias ( 1.8-16 ), Habacuque ( 1.2-4 ), Zacarias ( 12.10-14 ), Mateus ( 2.18, compare com Jeremias 31.15), Jesus ( Mateus 5.4, Lucas 13.34, João 11.33-35 ), Paulo ( 2 Cor 12.7 , Filipenses 2.6-9, 8.9-11 ), os Mártires do Apocalipse ( Ap 6.10 ).

“ Restaura-nos, Senhor, para ti “ .

Gerson

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1 Comments:

Blogger nuno said...

Na relação Pai e filho, bem expressa em seu excelente musical, é muito mais fácil quebrar a cara do que ver alguém a quem amamos se quebrar. Pois quando quebramos a cara podemos cair em si, mas se outros quebram, quem garante que poderão se levantar?

É mais difícil ser pai pois o pai apenas lamentou, e aparentemente lamentar não resolve resolve como o agir (quando na verdade, resolve até mais).

7:36 PM  

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