A Meditação do Dia - Gerson Borges

Ler é um exercício espiritual. O texto por excelência, a Bíblia, revela uma pessoa - Deus. Pessoas. Relacionamento. Vida. Eis o mundo da leitura! " Tome e Leia!" (Agostinho)

24.1.07

A verdadeira comunidade é alimentada pela verdadeira solitude



A Meditação do Dia

* Leituras Bíblicas para hoje:

- Salmo 3.1-5
- Antigo Testamento: 2 Sm 22.20-21

- Novo Testamento: 1 Cor 13.12,13


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* Texto da Semana : A verdadeira comunidade é alimentada pela verdadeira solitude

Por Gerson Borges


"
Solitude saudando solitude , é disso que se trata a comunidade. Comunidade não é o lugar onde não estamos mais sós, mas o lugar onde é possível respeitar, proteger e reverentemente abraçar a solidão do outro. Quando permitimos que nossa solidão nos leve para a solitude, desenvolvemos a capacidade de nos regozijar na solitude dos outros.
Nossa solitude se enraíza nos nossos próprios corações. Ao invés de nos fazer famintos pela companhia que nos ofereça satisfação imediata, a solitude nos faz assumir centro das nossas vidas e nos capacita a incentivar que os outros façam o mesmo. Nossos verdadeiros momentos de solitude são como fortes, firmes colunas que sustentam o telhado da nossa casa de comunhão. É por isso que a comunidade é fortalecida pela solitude. " ( Henri Nouwen, Bread for the journey )


Não fui ao Aurélio nem ao ao Houaiss , mas penso que em português não temos o termo " solitude" dicionarizado. Deveríamos: solidão, palavra que usamos para descrever o estado de quem está só, lugar ermo, isolamento físico ou emocional , é filha legítima de solitudine, no Latim. Em inglês, língua elástica, flexível, apesar de não tão bela quanto " a última flor do Lácio " ( Bilac, Caetano... ), eles dizem aloneness ou solitude , loneliness ou solitude ( sim, o inglês também é nosso meio-irmão: traz consigo muita herança latina também ). Solidão involuntária, o primeiro e solidão voluntária, o segundo.

Detesto solidão. Amo a solitude. Sinto enorme alegria em estar com meus amigos, em ter gente perto de mim, mas aprecio igualmente o precioso revigoramento de um tempo na companhia de mim mesmo. Em silêncio. Escrevendo. Lendo. Orando. Eu comigo. Eu e o meu coração. Sozinho som a minha alma, ah, isso me dá verdadeira alegria! Não consigo abrir mão de um tempo diário, semanal para salmiticamente perguntar à minha alma " Por que estás abatida, por que te perturbas dentro de mim? " . Sem esses diálogos interiores, eu me perco facilmente na minha rotina urbana de pastor, pai, artista, amigo dos meus amigos, homem, gente... se não consigo ficar prazerozamente a sós comigo mesmo, não terei prazer em estar com os outros. Se acho uma chatice a minha própria companhia, imagino o que as pessoas não pensam de mim...

Essa descoberta da solitude como lugar de
oração, auto-conhecimento, contentamento e trasformação e não nasceu do nada. É uma construção que, no meu caso, vem da meditação na Vida de Jesus , que " nos chama da solidão para a solitude " ( Richard Foster ), que claramente apreciava e praticava a solitude das madrugadas, no deserto ( Mt 6.31;4.1-11 ;14.13; 26-46 Lc 6.12; ) e no ensino de alguns de seus seguidores. Há muita sabedoria nos seus conselhos:

- T.S. Elliot : " Onde o mundo será descoberto? Onde a palavra ressoará? Não aqui - não há silêncio suficiente. "
- Richard Foster : " Solitude é mais um estado de mente e coração do que um lugar. E sem silencio não há solitude . "
- Dietrich Bonhoeffer : " Quem evita estar só deve ter cuidado com a comunidade, e aquele que evita comunidade deve ter cuidado com a solitude. "
- Henri Nouwen : " Sem solitude é impossível viver uma vida espiritual . "

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Uma jornada simples para descobrir e desfrutar o imenso oásis espiritual que há na solitude ( eu mesmo a fiz e refaço , já que ler é reler ):

- O capítulo : " Disciplina da solitude " , de Celebração da Disciplina ( Richard Foster, Editora Vida )
- O livreto " A espiritualidade do deserto e o ministério contemporâneo - o caminho do coração " ( Henri Nouwen, Editora Loyola )

- Gastar uma semana com os seguintes textos bíblicos ( no roteiro : silenciar, ler, meditar e orar ) :

Domingo : A liberdade de controlar a língua ( Tiago 3. 1-12; Lucas 23. 6-9 )
Segunda
: Oração e solitude ( Mateus 6. 5,6; Lucas 5.16 )
Terça : Os ensinos ( inshts ) da solitude ( Salmo 8 )
Quarta : A Noite Escura da Alma ( Jeremias 5.7-18 )
Quinta: A solitude do Jardim ( Mateus 26. 36-46 )
Sexta: A solidão da Cruz ( Mateus 27. 32-50 )
Sábado: A compaixão que vem da solitude ( Mateus 9.35-38; 23.37 )

( Roteiro extraído de " A Celebração da Disciplina : Um Guia de Estudo )

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Deus seja conosco e nos visite com sua Graça e Amor , na solidão e na solitude!

Gerson

19.1.07

Ritmo

Um ciclo diário de orações é o que constitui aos poucos o ritmo essencial em torno do qual as outras atividades do dia se dão adequadamente. Precisamos de ritmo, de rotina. Usamos o termo rotina pejorativamente. Rotina não é um mal. Rotina é regularidade, simetria. O coração tem ritmo, tem rotina. Quando isso falta, é taquicadia. A respiração tem ritmo, o oposto é falta de ar. Tudo em nós tem ritmo, compasso, regularidade: sono, intestinos, atividade cerebral. Fora disso, doença. A vida espiritual também precisa desse ritmo litúrgico. Ora et labora, dizia Bento de Núrsia. Atvidade, parada. Pausa, engajamento. Seis dias de trabalho, um de descanso, shabat, ensina o Decálogo. Suar e " dar um tempo ". Ouvir ( a Deus, a mim mesmo, aos outros ), falar ( a Deus, a mim mesmo, aos outros ). Música sem ou fora do ritmo não é música, é ruído. Vida sem ou dora do rítmo não é vida , é morte.

Isso me ocorre ao meditar no salmo 84 : " um dia na casa de Deus " vale mais que mil na casa da alienação. Mas é habitar, é conviver com ele, sua voz, sua palavra, sua presença diária, cotianamente: liturgia é ritmo.

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A gente conhece e canta " Teus Altares ", do Gui Kerr e do Jorginho Camargo. Um clássico.

Eis uma outra voz , outra cara para esse belíssimo e inesgotável Salmo. Desta feita, Celta: a Comunidade Northumbria , na Inglaterra, que muito me inspira , com sua ênfase monástica à contemplação e à vida comunitária. Baixe aqui e ouça aí!

De meu coração, que pulsa,. que pulsa, que pulsa, que pulsa,

Gerson

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- Leituras para hoje:

Salmo 84.3-7:

Bem-aventurados os homens cuja força está em ti, em cujo coração os caminhos altos.
Passando pelo vale de Baca, fazem dele um lugar de fontes; e a primeira chuva o cobre de bênçãos.
Vão sempre aumentando de força; cada um deles aparece perante Deus em Sião.

Malaquias 3.16-18:

Ora pois, nós reputamos por bem-aventurados os soberbos; também os que cometem impiedade prosperam; sim, eles tentam a Deus, e escapam.Então aqueles que temiam ao Senhor falaram uns aos outros; e o Senhor atentou e ouviu, e um memorial foi escrito diante dele, para os que temiam ao Senhor, e para os que se lembravam do seu nome. E eles serão meus, diz o Senhor dos exércitos, minha possessão particular naquele dia que prepararei; poupá-los-ei, como um homem poupa a seu filho, que o serve. Então vereis outra vez a diferença entre o justo e o ímpio; entre o que serve a Deus, e o que o não serve.

Romanos 8.14.17:

Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor, mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai! O Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus; e, se filhos, também herdeiros, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo; se é certo que com ele padecemos, para que também com ele sejamos glorificados.

( Do devocionário da Northumbria Community, Inglaterra :

17.1.07

Ore como puder, mas ...ore!


A Meditação do Dia - Gerson Borges

Leituras Bíblicas para hoje:

- Salmo 17.5-7
- Isaías 40.3-5
- Marcos.1.15-18

Um texto sobre a oração que vale a pena ser lido:

A oração e o retrato do caráter
Por Ricardo Barbosa




Tenho visto, com muita freqüência, crentes orando por vagas em estacionamento, de preferência uma bem em frente à loja que precisam ir, ou clamando fervorosamente para que não chova no dia do casamento ou aniversário planejado para acontecer num espaço aberto. Ouço pais pedindo oração para que Deus dê uma força para que o filho que nunca foi de estudar muito passe no vestibular ou num concurso público; ouço também crentes expressando sua gratidão a Deus por terem conseguido furar uma fila, ou vender um carro batido sem que o comprador percebesse.

Orações assim são comuns em nossas igrejas. Contudo, quando reconhecemos que a oração é um meio de relacionamento, ela nos oferece um duplo retrato: de Deus e de quem ora. A oração tem um papel importante no relacionamento entre o homem e Deus, pintando tanto o caráter humano como o divino. O que falamos para Deus (súplica, gratidão, louvor, desejos e situações da vida) revelam nossas motivações, nossa moral e nosso caráter. Da mesma forma, algumas afirmações que fazemos sobre Deus na oração (amoroso, justo, misericordioso, soberano) revelam convicções sobre a natureza divina.

Nem sempre nossa compreensão sobre quem é Deus revela a verdadeira natureza divina. Por exemplo, Deus se revela como um Deus justo e reto e nós o experimentamos como um Deus caprichoso e vingativo; Deus se revela como um Deus sempre presente mesmo em meio ao sofrimento, e nós o experimentamos como um Deus ausente ou distante. O retrato que fazemos de Deus certamente não é mais importante do que o retrato que Deus faz de si mesmo. A percepção humana de Deus precisa sempre ser corrigida e transformada pela auto-revelação de Deus nas Escrituras. E nossas orações quase sempre revelam também a natureza de nosso caráter. Por isso a oração é não apenas um meio de relacionamento, mas também um caminho de transformação.

Elias foi reconhecido como um homem de Deus e Ezequias, como um rei fiel. O caráter de ambos foi afirmado pela oração e pela confiança em Deus em momentos de crise. Em cada caso, suas orações foram apresentadas de acordo com a situação vivida, e deram uma definição do caráter deles. Eles oravam da forma como agiam, seus atos não contradiziam suas palavras. Da mesma forma, as orações de Paulo que encontramos em suas cartas, também revelam seu caráter e sua teologia. Basta um olhar atencioso para vermos em Paulo um coração pastoral, comunitário, resignado e entregue a Deus e ao seu povo, bem como um Deus que é o Soberano Senhor, que se revela a nós por meio do seu Filho e que voltará em glória e majestade.

A oração pinta um retrato de Deus e de quem ora. Se prestarmos atenção na forma e conteúdo da oração, seja aquela que fazemos na igreja, publicamente ou em grupo, ou a que fazemos sozinhos no quarto, teremos um retrato muito fiel e real da igreja, nosso e daquilo que pensamos sobre Deus e sobre seu propósito para a igreja e o mundo.

Provavelmente os pais que oram para que Deus dê uma mãozinha para que o filho preguiçoso passe no vestibular negam em suas orações o caráter justo de Deus, e se revelam também como pessoas que pouco se importam com a justiça. Tornam-se capazes de atribuir a Deus a "bênção" de um negócio ilícito. E orações suplicando a Deus para que não chova apenas para não estragar a festa ou o penteado, as férias na praia ou o churrasco no sábado, revelam o caráter egoísta de quem ora e a concepção de um Deus que não passa de um mágico cósmico.

Se queremos saber quem somos, o que pensamos sobre Deus, quais são nossas motivações primárias e a raiz do nosso caráter, basta um olhar honesto para a nossa vida de oração, que revela tanto a teologia como a antropologia. Porém, a oração não apenas revela as distorções antropológicas e teológicas, mas também é a forma e o caminho para corrigir essas distorções. Pior do que orar errado é não orar. Enquanto permanecemos orando, temos a chance de ver nossa compreensão de Deus e de nós mesmos sendo transformadas.

Ricardo Barbosa de Sousa é pastor da Igreja Presbiteriana do Planalto e coordenador do Centro Cristão de Estudos, em Brasília. É autor de Janelas para a Vida e O Caminho do Coração.

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9.1.07

Uma oração de Sören Kierkegaard



Partilho hoje uma oração realmente autêntica e relevante para nós, mesmo tantos e tantos anos depois de orada-escrita por esse precioso teólogo e filósofo dinamarquês:

" Pai Celestial,

Não queremos que nossos pecados estejam contra nós,
e sim queremos nós estar contra os nossos pecados.
De maneira que cada pensamento que tenhamos de Ti,
quando estes se despertam em nossa alma,
seja capaz de recordarnos não dos desvios nos quais
temos estados extraviados e perdidos, mas do caminho de misericórdia no qual nos encontraste e nos salvaste por Tua Graça. "

Amém!

( Citado em Uma viagem ao coração de si mesmo,
Carlos Hernandes, Ed. Comunidade de Jesus de SP - CPPC )

- Post Scriptum : saber mais sobre vida e obra de Kierkegaard, visite esse excelente link da Wikipedia.

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" A glória de Deus é compartilhar. " James Houston


Abraço do Gerson