A Meditação do Dia - Gerson Borges

Ler é um exercício espiritual. O texto por excelência, a Bíblia, revela uma pessoa - Deus. Pessoas. Relacionamento. Vida. Eis o mundo da leitura! " Tome e Leia!" (Agostinho)

22.3.08

" Esta é a Páscoa do Senhor ! "


Queridos, Feliz Páscoa, " Esta é a Páscoa do Senhor ! " ( Ex 12.11 )

Quero convidá-los a celebrar comigo a Páscoa de Jesus e Jesus, Nossa Páscoa.

Primeiro, meditando nessa canção ( http://www.gersonborges.com/pascoa.htm ) que escrevi para marcar essa Semana Santa, nossa lembrança da Morte e Ressurreição do Senhor.

Novo Êxodo (Gerson Borges )
© 2008 Gerson Borges
Todos os direiros reservados.

Outra vez nos vemos escravos
Outra vez zombam de nós
Outra vez, migalhas, centavos
Outra vez nos calam a voz


No Egito, um povo oprimido
E maltratado sem dó
" Logo nós, povo de Deus
Filhos de Jacó! "

A escravidão se repete
Basta ter olhos pra ver
Mas Deus de novo promete
Sua vontade fazer


Resgatar seu povo escolhido
E quando a Morte passar
Sobre nós, povo de Deus
Cristo estará

Cristo é o nosso Cordeiro Pascal
Cristo é o nosso Cordeiro
Nas nossas portas o Sangue é sinal
Do amor que é mais verdadeiro


Cristo é o nosso Cordeiro Pascal
Cristo é o nosso Cordeiro
Nas nossas vidas Seu Sangue é sinal
Do amor do Pai por inteiro


Outro Êxodo é proposto
Outra Jornada de fé
Que não faz a contragosto

E é demorada, a pé

O Egito ainda é astuto
Nos aprisiona e seduz
Resisti, Povo de Deus,
Em Cristo e em sua cruz!


Em segundo, quem estiver por aqui, em Sampa ou no ABCD e quiser aparecer na
Casa da Comunidade ( veja o endereço também no link acima ), será uma alegria
recebê-los e abraçá-los ao redor da Mesa do Senhor.

Hoje à noite , eu, Cinha e os meninos, celebraremos a Páscoa no estilo judaico, com uma carne assada, ervas amargas e pão sem fermento, cantaremos hinos e contaremos uns aos outros " o que significa essa cerimônia ". ( Ex 12 ). Nada judaizante, apenas um exercício litúrgico , uma celebração desse tempo sagrado dentro de um espaço sagrado, a familia, o lar.

Um abraço,

Gerson

20.3.08

Apenas uma palavra

Ao ler essa manhã em Mateus 8.5-17, sobre a fé maravilhosa de um centurião romano, que diz ( ora) " Dize apenas uma palavra e o meu servo ficará curado " e recebe de Jesus uma linda resposta - " Como você creu, assim lhe acontecerá! " , lembrei-de uma canção de tempos atrás , gravada no CD " Tua presença vai me transformar " ( com a minha igreja, Comunidade de Jesus, São Bernardo ). Deixo para vocês a tarefa de meditar na letra:

Apenas uma palavra

Dize apenas uma palavra
Simplesmente fale, Senhor
Basta que a tua voz ressoe
E a nossa alma conhecerá o teu amor

Tão cansados do sofrimento
Que nos cerca a vida aqui
Tudo o que resolve o tormento
É uma só palavra tua ouvir

Porque quando o Senhor nos fala
Em adoração, nosso ser se cala

E descansa em Deus e agradece a Deus
A bondade do Pai

Dize apenas uma palavra
E será bastante, enfim
Como Jó, bem sei que tudo podes
Teu plano é o melhor para mim

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Gerson

De joelhos, irmãos!



" Um leproso, aproximando-se, adorou-o de joelhos " ( Mateus 8.2 )


Não há rigor formal ou uma exigência bíblica dura e inflexível quanto à postura física que se deve adotar na adoração, mas me parece que ajoelhar-se diante de Deus é a posição de adoração. Isso por todo o conjunto do ensino e das experiências de culto nas Escrituras que do Gênesis - " Então inclinou-se o homem e adorou ( shâchâh , em Hebraico ) ao Senhor." ( Gn 24.26 ) , ao Apocalipse ( proskuneō, no grego ) – "Então os vinte e quatro anciãos e os quatro seres viventes prostraram-se e adoraram a Deus que está assentado no trono, dizendo: Amém. Aleluia! " ( Ap 19.4)

Prostrado quer dizer rendido.

Rendido quer dizer vencido.

Vencido quer dizer humilde.

Humilde quer dizer pequeno.

Pequeno quer dizer humano.

Humano quer dizer pecador.

Pecador quer dizer imperfeito.

Imperfeito quer dizer não-divido.

Não-divido quer dizer limitado.

Limitado quer dizer carente.

Carente quer dizer menor.

Menor quer dizer fraco.

Fraco quer dizer pó.

Pó quer dizer nada diante do tudo que é Deus!

Se como aquele homem eu tomar contato coma a minha lepra, o que me restará será ajoelhar-me diante de Jesus reconhecendo nele minha única cura e salvação, meu único socorro e remédio, meu verdadeiro e definitivo redentor! Isso será adoração. Adoração é o que acontece quando conheço a mim mesmo - leproso! - e a Deus - Santo, Santo, Santo ! Só adora de verdade quem possui esse duplo conhecimento do qual nos falava Agostinho. Adorar a Deus é reconhecer que ele é Deus. Será que minha lepra me leva ao chão , ao barro, à adoração de joelhos ? O meu e o seu problema é que não gostamos de nos abaixar ou, pior, de nos rebaixar ....nem diante dos homens nem de Deus! Quando me curvo diante da superioridade do outro, seja lá o que for que estiver envolvido, eu me diminuo. Isso dói. Isso me derruba. Isso mata o meu orgulho. Mas preciso dessa humilhação se quero ser " um adorador do Pai ". Só poderei adorar a Deus se estiver disposto a descer dos pedestais da minha prepotência e arrogância e sentir o cheiro da terra – adoração! Só poderei dizer que adoro ao Deus Pai, Filho e Espírito Santo se eu me sentir leproso e me ajoelhar, melhor, me lançar descontroladamente, me atirar aos pés de Cristo!

A melhor adoração é de joelhos. A melhor vida é a quebrantada, curvada, ajoelhada. Os melhores adoradores são os leprosos!


Gerson

18.3.08

O quê? Como?

Henri Nouwen nos ensina que nossa verdadeira vocação, nossa verdadeira identidade não é a do Filho Mais Novo nem a do Filho Mais Velho da Parábola que Jesus contou. Somos chamados a nos identificar com o Pai, com Deus. Para Nouwen, e eu concordo, isso exigirá um processo que passar pelo aprendizado prático do pesar, do perdão e da generosidade ( vale a pena ler o que ele ensina em “ A volta do filho pródigo “ sobre ‘ Tornar-se Pai ‘. ) Ainda no tema da arte perdida do lamento bíblico, divido algumas meditações, não sei se bem-vindas, mas bem-vividas, com certeza, por mim!

Pesar. Não o verbo (do Latim Pensare, isto é, determinar, avaliar o peso de ) mas o substantivo (mágoa, desgosto, remorso, arrependimento, tristeza, pêsame ). Pesar é luto, lamento. Só sabe e pratica isso quem é adulto emocionalmente, quem , por meio de consciente, sacrificial empatia abre os olhos, os braços e o coração para o sofrimento. Primeiro, o seu. Depois do outro. Isso faz todo sentido pois não podemos crescer sem lidar em um nível mais abrangente com a dor, com a perda, com a desordem das coisas, das relações, com a terrível realidade do mal, tanto o humano quanto o demoníaco, como enfatiza Scott Peck em ‘ O povo da mentira ‘ . Pesar é dizer como os enlutados no Antigo Testamento “ake “, em hebraico , “ o quê ? Como ? “

O quê ? Como aquela família se destruiu ?

O quê ? Como aquela pessoa se arrebentou ?

O quê ? Como aquele ministério, aquela igreja terminou assim, patéticamente ?

“ Restaura-nos, Senhor, para ti, para que voltemos. Renova-os nossos dias como antigamente “ ( Lamentações 5.21 )

O quê ? Como uma amizade assim terminou sem mais nem menos ?

O quê ? Como uma parceria tão promissora para o Reino de Deus deu em nada ?

O quê ? Como uma personalidade tão carismática e um caráter tão invejável pôde evaporar no ar ?

“ Restaura-nos, Senhor, para ti, para que voltemos. Renova-os nossos dias como antigamente “ ( Lamentações 5.21 )

O quê ? Como alguém tão generoso se vende por tão pouco ?

O quê ? Como alguém se deixa seduzir tão descaradamente por Mamon ?

O quê ? Como alguém assim , tão sábio e experiente cai na velha armadilha do trio nefasto dinheiro-sexo-poder ?

A resposta, eu sei e você sabe: a gente é humano, demasiadamente humano. Por isso, a queda, o tombo, o olho-roxo. Ah, mais eu lamento ! “ Restaura-nos, Senhor, para ti “ .

A Lectio Divina em Lamentações ( estou seguindo o roteiro de Carlos Hernandez, ‘Uma viagem ao coração de si mesmo ‘ ) deixou-me pesaroso, convidou-me ao lamento. Seguindo o conselho de Anselm Grün ( ‘ O céu começa em você ‘ ) , não fugi da cela domeu coração, pelo contrário, tenho me recolhido ainda mais nela. Lá, ou aqui, dentro de mim, recupero nesses dias a gramática, o vocabulário, a sintaxe dessa linguagem perdida do lamento. Não é perda de tempo não. Como diz Michael Card no seu lindo livro “ A sacred sorrow “ ( Um luto sagrado), recuperar essa linguagem nos torna “ mais verdadeiros na adoração e na oração “, mais solidários, mais humanos, mais comedidos e cuidadosos na hora de atirar pedras, de descer o pau do julgamento . Ou seja, mais adultos. Espiritual e emocionalmente.

Mas Nouwen tem mesmo razão: é mais fácil ser Filho pródigo do que Pai Espiritual . Mas para quem quiser aprender, eis alguns ( bons ! ) professores em aulas-práticas: Deus ( Gn 6.6 , 1Sm 8.7 ), Davi ( 2 Sm 1.17, 3.33, 18.33), Jeremias ( 2 Cr 35.25 , Jr 12.1-4, 14.17-22, 20.7-18, 25.34-38 , Lamentações , capítulos 1-5 ), Esdras ( 9.6 ), Salomão ( Ec 1.1-11 ), Ezequias ( Isaías 38.10-20 ), Isaías ( 52.13 – 53-.13 ), Daniel ( 9.4-19 ), Amós, ( 5.1-4 ), Jonas 2, Miquéias ( 1.8-16 ), Habacuque ( 1.2-4 ), Zacarias ( 12.10-14 ), Mateus ( 2.18, compare com Jeremias 31.15), Jesus ( Mateus 5.4, Lucas 13.34, João 11.33-35 ), Paulo ( 2 Cor 12.7 , Filipenses 2.6-9, 8.9-11 ), os Mártires do Apocalipse ( Ap 6.10 ).

“ Restaura-nos, Senhor, para ti “ .

Gerson

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13.3.08

Lamentar, arte espiritual perdida


No meu tempo devocional diário, acabei de ler, meditar e orar com o livro de Jeremias e agora estou ( me deliciando ) em Lamentações.

Lamentar é uma arte espiritual perdida. Primeiro, é confundida com reclamar, murmurar, ranzinzar. Lamento é coisa de coração partido. Quem lamenta a Deus , biblicamente falando, lida com o pecado. Quem reclama contra Deus, no geral, está pecando! Reclamação é coisa de coração mal-humorado, enfezado, azedo. Há muita diferença entre os dois. No lamento, a alma chora. Na reclamação, a Carne berra. No lamento, uso a poesia, tem profecia. Na murmuração pura e simples, minha principal ferramenta é a blasfêmia. Quando lamento diante de Deus, torno-me discípulo de David, dos Profetas, de Jesus : " Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, apedrejas os que a ti são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e não o quiseste! ( Mt 23:37 ). Quando reclamo, me vejo filiado ao povo rebelde de Israel, dizendo que a vida no Egito era melhor : " Lembramo-nos dos peixes que no Egito comíamos de graça, e dos pepinos, dos melões, das cebolas e dos alhos. " ( Nm 11:5 )

Não apenas o Livro das Lamentações mas Jó, por exemplo, é quase todo puro lamento, tristeza santa. Praticamente a metade dos Salmos são lamentos diante de Deus. Com exceção de Ageu, todos os Livros Proféticos trazem muito lamento e choro por causa do pecado de Israel ou de alguém em especial. Por que então não lamentamos nos nossos cultos comunitários e devoções pessoais?

A resposta passa por dois itens : primeiro, somos espiritualmente imaturos e emocionalmente doentes. Quem sabe lamentar, quem sabe quando, como e por que abraçar algum luto, é gente madura e sadia, gente crescida. Em segundo, não queremos sofrer... uma pena, pois sem dor não mudamos. Aliás, " só mudamos quando a dor de permanecer os mesmo é maior do que a dor da mudança ! (Scazzero). Já que o sofrimento de certo modo é inevitável, então que seja nossa aliado. Jung, o psicólogo e psicanalista , dizia que " a neurose , a doença emocional é o que toma o lugar do sofrimento que vale a pena ". Negar a dor é aumenta-la, amplifica-la. Fugir da dor de uma perda, de um rompimento, de uma decepção é torna-la permanente e poderosa. Lamente e liberte-se. Siga o exemplo do profeta Jeremias, dos Salmistas, de Paulo e de Jesus! Quando você sentir-se decepcionado com algo ou com alguém, quando for traído, quando a vida for pesada demais, " ponha o seu rosto no pó, talvez ainda haja esperança " ( Lm 3.29 ) . Por coisas minhas, lutas minhas, pecados meus e dos outros, hoje estou de luto.

Gerson Borges